sábado, janeiro 02, 2010

Lopes-Graça, história trágico-marítima, I - sagres / VII MAR




SAGRES - MIGUEL TORGA


Vinha de longe o mar...

Vinha de longe, dos confins do medo...

Mas vinha azul e brando, a murmurar

Aos ouvidos da terra um cósmico segredo.



E a terra ouvia, de perfil agudo,

A confidencial revelação

Que iluminava tudo

Que fora bruma na imaginação.



Era o resto do mundo que faltava

(Porque faltava mundo!).

E o agudo perfil mais se aguçava,

E o mar jurava cada vez mais fundo.



Sagres sagrou então a descoberta

Por descobrir:

As duas margens da certeza incerta

Teriam de se unir!



Miguel Torga










"Mar", Miguel Torga



Mar!

Tinhas um nome que ninguém temia:

Eras um campo macio de lavrar

Ou qualquer sugestão que apetecia...



Mar!

Tinhas um choro de quem sofre tanto

Que não pode calar-se, nem gritar,

Nem aumentar nem sufocar o pranto...



Mar!

Fomos então a ti cheios de amor!

E o fingido lameiro, a soluçar,

Afogava o arado e o lavrador!



Mar!

Enganosa sereia rouca e triste!

Foste tu quem nos veio namorar,

E foste tu depois que nos traíste!



Mar!

E quando terá fim o sofrimento!

E quando deixará de nos tentar

O teu encantamento!





Miguel Torga, «Antologia Poética».

Lisboa, Publicações Dom Quixote, 5.ª ed., 1999

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